quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Viagem

De repente me vi perdida entre caixas e baús empoeirados. O silêncio sombrio era corrompido, religiosamente, a cada sopro forte que batia na janela. Senti medo. Eu sabia que não devia ter entrado por aquela porta, mas o desejo de mergulhar no desconhecido tomou conta de mim.
   Ao lado de um armário antigo eu vi um vulto. Falei repetidas vezes: ‘’Quem está aí?’’ E via somente a silhueta de uma moça que aparentava ser muito elegante. Me aproximei como quem se aproxima de um penhasco, com passos lentos e curtos, a vela que estava acessa no canto do quarto se apagou, e de repente, senti como se minha alma estivesse flutuando.
    Até hoje não sei bem o que aconteceu naquela noite, mas me dei conta que meu ser habitava outro corpo. Um corpo que me entendia, que me movia, e me divertia. Eu finalmente não tinha medo da solidão, eu me dava bem com ela. Não tinha medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, para mim só importava o corpo que me possui. Meus pensamentos nunca haviam sido tão profundos...Alguns minutos depois as pontas dos meus dedos começaram a formigar, minha cabeça a latejar, e quando me dei conta, estava novamente dentro do meu corpo. Aquele de sempre. Chato, previsível, sem amor, sem desejos nem vontades...Minha primeira reação foi procurar aquela silhueta que tanto tinha me feito bem, mas não encontrei nada. Tudo que via era um vazio estranho, sombrio, e cheio de neblinas. Naquele momento eu me senti como uma criança de pouco mais de 5 anos, desejando o colo da mãe.
     Cheguei a pensar que tudo era um sonho, me belisquei e a resposta não demorou a chegar: Tudo era real. Existia mesmo um quarto, dentro da minha própria casa, onde eu podia me refugiar, entrar num corpo estranho, remoer pensamentos belos e sair da mesmice do século 21. Precisava voltar lá de qualquer jeito.
     Eu não podia esperar, por isso fui até a porta onde tudo tinha acontecido. A maçaneta custou a abrir, como se fosse um aviso do perigo que estava por vir, mas mesmo assim entrei. A mulher que havia avistado no quarto escuro se virou para mim imediatamente, e num relance, enxerguei sua face. O corpo que me possuía era o de Clarice Lispector. Não entendia porque justo ela. Meu pai sempre me contou sobre seus textos e suas obras eram livros de cabeceira dele, mas essa coisa de sentimentalismo extremo nunca havia me encantado, mas quando experimentei a sensação de pensar através de uma mente simples, e que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho, eu entendi a admiração que meu pai cultivava sobre ela.
     Eu sempre tentei manter o domínio sobre tudo, acreditava que isso mantinha o equilíbrio entre as pessoas que viviam ao meu redor e não poder controlar meus pensamentos, de certa forma, me tornava alguém impotente. Mas eu também merecia ser feliz e os 15 rápidos minutos diários que eu passava dentro dela me acalmavam já que eu podia esquecer a vida caótica que eu existisse fora da alma de Clarice.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Carrega-me


Carrega-me contigo quando cruzar o amanhã, a luz, o impossível.

Porque de barro e palha tem sido esta viagem.  

Que tenho feito a sós comigo. Isenta do passado.

E de complicada geografia, sem nenhuma bagagem.

Hei de levar apenas a vertigem e a fé do seu esquecimento

Enquanto teu corpo de luz se afasta do meu...

Deixarei palavras e o meu amor embaçado em meio a ilusão

Não cantarei trivialidades. Só cantarei a ti.

E a paisagem, ao extremo, ao quase nós.

Carrega-me contigo.

No amanhã...

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Incertezas

Seres inatingíveis, seres superiores. A ilusão de manter sob controle tudo aquilo que nos rodeia. A falsa idéia de que podemos escolher o nosso caminho, a nossa própria trilha. Somos reféns do destino. De uma história já escrita por forças maiores, muito maiores, do que a nossa vã filosofia imagina. O mundo material é quase nulo diante da pressão que o imaterial causa no interior da nossa alma... ...Alma que habita o corpo e constrói a mente. Tecido costurado por memórias eternas que acabam se perdendo na efemeridade das ações e das palavras. Sons esquecidos, vontade apagadas. Um véu cortado, dilacerado... Um dia sem sol e uma noite sem lua. Vida que vem pros que não querem e que vai pros que tem muito a fazer. Vida pra aqueles que vem só para olhar, e para aqueles que vieram pra viver.
Cenas coloridas que se tornaram incolores com o seu vazio ocupado no espaço, imagens borradas como mancha de café no jornal da manhã... Inocência, bondade, calmaria.
Trajetória marcada pelo tempo, marcada pelos ruídos da saudade. Queria eu poder tirar toda a tristeza do peito de quem não o merece e embarcar num barquinho, apontar para a fé e... Remar, remar, remar. Até que eu veja seus olhos brilharem como antes, e sua voz me aninhar como antes...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Um esboço


Houve momentos na vida em que eu desejei abrir um zíper no meu corpo e sair para ver se assim a dor de ser quem sou amenizava. Quando desejei ser qualquer coisa. Uma planta, um tijolo... Tudo que fosse vazio de sentimentos para que assim conseguisse passar o dia mais feliz.  Eu to cansada de emoções esgotáveis, de palavras superficiais, de gestos dispensáveis. Eu sempre quis o que há de mais intenso nessa jornada, eu nunca aceitei pessoas mornas, eu nunca fui leviana com o coração de ninguém... Por isso esperei que ninguém fosse com o meu. A gente passa a vida toda procurando alguém que complete a gente, que nos faça viver cada minuto sem pensar no relógio, que nos divirta que nos emocione, e brigue lógico. Porque se você não briga com quem ama meus parabéns! Você alcançou algum estado supremo de meditação no amor, seu mala!  
Às vezes a gente não entende as manobras que a vida faz, e assim, tentamos encontrar definição para tudo, mas esquecemos que o bom de viver é justamente isso. Não definir. Não se define uma pessoa, não se define um sentimento, não se define um destino. Só se respeita ele, e o aproveita da melhor maneira possível porque as pessoas mais inteligentes são as que transformaram as melhores chances em oportunidades transformadoras. Somos moldes e não uma escultura perfeccionada pronta para andar. Nossa trilha é incerta e não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio já é a própria vida? É isso que leva tudo a parecer sempre um esboço.  No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa, pois sempre é o projeto de alguma coisa, e a nossa vida não é esboço de nada, é um esboço sem quadro.
Uma vez não conta, uma vez é nunca...
Poder viver apenas uma vida é como não viver nunca.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Porque não sou a mulher da sua vida

Primeiro porque provavelmente eu seja louca - o que até acredito que seja verdade.
Não vou ficar aqui me superestimando dizendo que sou linda, inteligente, leio, escrevo, tenho gosto refinado, enquanto você provavelmente só pensa e estima coisas que não interessam sem o menos valor intelectual ou tem a mente tão proveitosa quanto as propagandas trash de madrugada. Porém, para seu consolo, todo esse discurso, é pura frustração, ou em outras palavras: qualquer coisa que não seja EU na sua mente ou  na sua vida é resto porque na minha cabeça (louca), eu deveria ser tudo que te completa. Tudo que você poderia amar e não consegue viver sem, porque sou tudo de maravilhoso  que a vida poderia te oferecer.
Até sou, mas... Você acredita? Se você não acredita, o problema é exclusivamente seu, porque é de você que eu gosto. Não adianta eu tentar me convencer o quanto você é ignorante , ou melhor dizendo, burro em não perceber que eu sou a mulher da sua vida. Não adianta eu ficar aqui tentando enaltecer o meu ego me achando a última bolacha do pacote, tentando me consolar  dizendo que estou acima de toda sua mortalidade, se no fim do dia eu dou  aquela choradinha( sem ninguém i-m-a-g-i-n-ar, é claro afinal sou superior a tudo isso), porque, veja só, eu sinto sua falta.


A verdade é que tenho sim todas as qualidades mutantes ( sou loira, simpática, boa filha, amiga sempre presente..) que permite que eu seja feliz, mesmo eu não conseguindo ser a mulher da sua vida.  E você tem sim todas as qualidades apaixonantes, que são maiores que seus defeitos... Mas disso eu não vou falar porque 1-o texto é meu e eu falo de você do jeito que eu quiser.2- eu vou querer ligar pra você depois.
Pois então é assim que termina nossa história : eu, uma mulher que não é a mulher da sua vida. Por que? Porque não. Simples. Sem mais divagaçoes ou busca de respostas que me consolem. Claaaaro que não me conformo. Você sabe que não sou tão esclarecida assim e sempre quero te mandar pro inferno. No entanto, agora é o momento de entender o que pode dar certo. O que, no fundo você também sabe, não é o nosso caso.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

E você... Ainda sonha?

     A gente vive sem um relógio, sem um anel, sem um mp3 de última geração. A gente suporta, mesmo que sofrendo, libertar nossa primeira paixão, ou viver longe de quem amamos. Eu consigo passar meses sem viajar, dias sem ouvir minha música favorita, e horas sem ler Caio Fernando Abreu... Mas sem alma não dá pra ficar. Sem o turbilhão de sentimentos que tomam conta de mim e me fazem perceber que eu estou viva.As reaçoes que meu corpo tem vão de uma simples risada aos mais extremos suores da minha epiderme. Cada centímetro de pele me traz à tona lembranças que eu imaginava estarem distantes de tudo e de todos. Memórias que até eu acreditava ter esquecido.
     Nós não somos grandes máquinas projetadas para amar. Somos humanos projetados para viver. E viver é tudo que acontece nesse grande intervalo entre a vida e a morte. É a junção daquele domingo tedioso com aquela festa inesquecível. É a soma das suas melhores risadas e das suas noites mais solitárias. É a equação formada por descobertas, desejos, sonhos e medos. Viver não é tão complexo quanto dizem, a gente é que tem mania de complicar tudo.
   Qual é o problema de largar as responsabilidades numa tarde e ir tomar um sorvete de baunilha com cobertura de chocolate? E não, nem ouse pensar nas calorias. Todo mundo merece um, dois, milhares de dias de liberdade. Dias que são feitos por você para você mesmo... Sem cobranças, sem ponteiros no relógio marcando cada compromisso atrasado.
  Uma das melhores coisas do mundo é poder partir sem ter planos, melhor ainda é poder voltar quando queremos... Acho que a felicidade só pode ser encontrada assim. Somando pequenas coisinhas e gestos. Não tô dizendo que vai ser fácil, ou que tá sendo fácil... A gente só aprende com a dor, infelizmente...Mas que sem graça seria se tudo por aqui fosse previsível. Meu coração nunca iria bater mais forte, meus olhos não iriam encher de lágrimas e minha voz não iria ficar trêmula diante do seu corpo.
  Confusão. Mistura. Parece que eu entrei num grande liquidificador onde, às vezes, os sentimentos se confundem. Onde o que era amor sem querer deixei passar e só depois começei a desconfiar que ele poderia ter sido o cara legal da minha vida. Ou então o processo inverso. Aquele corpo que me fazia querer chegar mais perto, aquela voz que mexia com minha imaginação simplesmente me mostrou que não merecia uma gota do meu sofrimento, ou um minuto do meu pensamento.
  Agora chega. Não quero saber de mais nada! Não me peça para voltar, não me abraçe se você não quiser me magoar. Não diga que ama minha companhia ou que não imagina uma vida sem mim. Isso me faz mal se eu não puder ter você comigo.
  Eu estou com a sensação de que a nossa história passou por nós dois...Mas tudo aquilo foi para onde? Você sabe? Você pode me dizer?
   E você... Ainda sonha?

segunda-feira, 14 de março de 2011

Quase tudo se quebrou

   
     Porta retratos se quebram. Garrafas de cerveja, celulares, discos do Latino, se estivermos com sorte. Pessoas nunca, a não ser quando esquecem de olhar os dois lados. Mas emocionalmente falando, não. Quem sou eu pra palpitar na sua vida? Ninguém. Você caiu feio, e pronto. Se machucou, ok. Dói, eu sei. Perdeu sua capacidade de amar, verdade. Ou não. Não existem verdades, apenas versões, na minha versão.
  Sei bem como funciona, quantas vezes já fui dispensada do amor. Muitas. Quis quem não me queria, amei quem enganava, dividi relacionamentos, acreditei no romance de cinema, me quebrei, levantei, desisti, contei mentiras, interpretei. Você não se quebrou, eu não me quebrei. É que a gente simplesmente gosta de amar. Não conseguimos imaginar viver sem, sentimos saudade, choramos, ouvimos músicas e lemos livros por impulso, e quando me dou conta em pleno sábado a noite estou com meu pijama furado revisando filmes melancólicos - meu favorito é "Diário de Uma Paixão'' .
   Todo mundo continua aberto ao amor...Se as coisas não aconteceram é porque não aconteceram. Pretensão sua achar que pode dirigir sua vida. Se acalme e pense que você está apenas secando a primeira lágrima que caiu. Sei que na hora é como se esse sentimentos fosse infinito, mas não é difinitivo.