De repente me vi perdida entre caixas e baús empoeirados. O silêncio sombrio era corrompido, religiosamente, a cada sopro forte que batia na janela. Senti medo. Eu sabia que não devia ter entrado por aquela porta, mas o desejo de mergulhar no desconhecido tomou conta de mim.
Ao lado de um armário antigo eu vi um vulto. Falei repetidas vezes: ‘’Quem está aí?’’ E via somente a silhueta de uma moça que aparentava ser muito elegante. Me aproximei como quem se aproxima de um penhasco, com passos lentos e curtos, a vela que estava acessa no canto do quarto se apagou, e de repente, senti como se minha alma estivesse flutuando.
Até hoje não sei bem o que aconteceu naquela noite, mas me dei conta que meu ser habitava outro corpo. Um corpo que me entendia, que me movia, e me divertia. Eu finalmente não tinha medo da solidão, eu me dava bem com ela. Não tinha medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, para mim só importava o corpo que me possui. Meus pensamentos nunca haviam sido tão profundos...Alguns minutos depois as pontas dos meus dedos começaram a formigar, minha cabeça a latejar, e quando me dei conta, estava novamente dentro do meu corpo. Aquele de sempre. Chato, previsível, sem amor, sem desejos nem vontades...Minha primeira reação foi procurar aquela silhueta que tanto tinha me feito bem, mas não encontrei nada. Tudo que via era um vazio estranho, sombrio, e cheio de neblinas. Naquele momento eu me senti como uma criança de pouco mais de 5 anos, desejando o colo da mãe.
Cheguei a pensar que tudo era um sonho, me belisquei e a resposta não demorou a chegar: Tudo era real. Existia mesmo um quarto, dentro da minha própria casa, onde eu podia me refugiar, entrar num corpo estranho, remoer pensamentos belos e sair da mesmice do século 21. Precisava voltar lá de qualquer jeito.
Eu não podia esperar, por isso fui até a porta onde tudo tinha acontecido. A maçaneta custou a abrir, como se fosse um aviso do perigo que estava por vir, mas mesmo assim entrei. A mulher que havia avistado no quarto escuro se virou para mim imediatamente, e num relance, enxerguei sua face. O corpo que me possuía era o de Clarice Lispector. Não entendia porque justo ela. Meu pai sempre me contou sobre seus textos e suas obras eram livros de cabeceira dele, mas essa coisa de sentimentalismo extremo nunca havia me encantado, mas quando experimentei a sensação de pensar através de uma mente simples, e que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho, eu entendi a admiração que meu pai cultivava sobre ela.
Eu sempre tentei manter o domínio sobre tudo, acreditava que isso mantinha o equilíbrio entre as pessoas que viviam ao meu redor e não poder controlar meus pensamentos, de certa forma, me tornava alguém impotente. Mas eu também merecia ser feliz e os 15 rápidos minutos diários que eu passava dentro dela me acalmavam já que eu podia esquecer a vida caótica que eu existisse fora da alma de Clarice.
